Demorou mas chegou a hora de contar sobre essa receita do lado italiano da família, que desde que me entendo por gente as tias preparam no Carnaval.
Crostoli: uma massinha doce frita com cobertura de açúcar. Simples assim. Mas às vezes não tão simples assim. Porque cada uma tem sua preferência de texturas e sabores e a confusão é geral na cozinha quando junta a tiarada e a primaiada.
Nos últimos anos, cada família tem feito suas receitas em casa e levado um saquinho pronto para a outra família experimentar. Menos gente, menos barulho.
Sério: a receita é simples e cheia de aromas. Leva pinga, baunilha e raspas de laranja e limão. Precisa passar no cilindro para ficar bem fininha antes de fritar no óleo bem quente.
E é nessa etapa de abrir a massa que a confusão se instala: a nonna que trouxe a receita original do Norte da Itália gostava bem fininha. Quase quebradiça. Mas os abrasileirados preferem a massa um tantinho mais grossa. E, no cilindro, a disputa começa.
E tem quem gosta mais branquinha e quem prefere torradinha. Tem quem usa só baunilha e quem prefere acrescentar os aromas cítricos da receita original.
Esse ano, fizemos nosso crostoli no sítio, em seis pessoas. Seis massas que descansaram na geladeira do sábado para o domingo chuvoso de Carnaval. Eu e meu pai no cilindro, minha mãe cortando as fatias, o tio fritando e a tia colocando o açúcar. E a vó opinando.
Foi assim até metade da segunda massa, quando um vendaval de verão interrompeu a linha de produção. Mudamos as mesas de lugar e esperamos a ventania molhada cessar enquanto fomos almoçar: macarrão a bolonhesa e frango assado com batatas de todo domingo.
A tia e a mãe foram cochilar depois de arrumar a cozinha e o resto voltou para a linha de produção. Dessa vez, a vó assumiu o açúcar e eu fiquei na fritadeira até as matriarcas acordarem.
E fomos nos revezando entre cilindrar a massa, cortar, fritar e açucarar. Meu pai, como bom gerente de produção que foi a vida toda, encontrou um sistema de abrir a massa o mais padrão possível sem uso de balança. Assim conseguiríamos crostolis mais parecidos entre si. Pura ilusão.
E seguimos nessa toada até ver o sol descer vermelho na soja e a noite chegar trazendo os pernilongos. Quase no final e já exaustos, fizemos bolinhas com o resto da massa e enquanto eu fritava, meus pais passavam pano no chão da casa que estava grudando do óleo da fritadeira.
Duas bacias enormes e duas panelas enormes de crostoli renderam 21 saquinhos da massinha frita que serão distribuídos aos amigos nos próximos dias. E assim nossa tradição de Carnaval sobreviveu mais um ano.
Eu sou bastante apegada às pequenas tradições da minha família: Natal com a família do pai, ano novo com a família da mãe (que infelizmente se perdeu), Carnaval tranquilo em Pedrinhas, Páscoa como der, festa junina no sítio no Corpus Christi. E assim vou seguindo, enquanto os tios, alguns já idosos, ainda têm vontade de se juntar. Logo seremos nós a assumirmos a organização das festas. Logo teremos a responsabilidade de juntar a parentada pelo menos uma vez ao ano para a gente confraternizar junto. Logo descobriremos se somos mesmo tão unidos quanto eu penso que somos, mesmo perdendo uns pelo caminho.
Ainda bem que depois de anos vendo a tia, aprendemos a preparar o crostoli sozinhos: pelo menos essa tradição está garantida por um bom tempo na casa dos meus pais. Ainda que a tia leve só duas horas e nós um dia inteiro para fritar as tirinhas açucaradas.
Separe:
4 ovos
1 xícara de chá de leite
2 colheres de sopa de manteiga
8 colheres de sopa de açúcar
2 colheres de sopa de raspas de limão e de laranja
1 colher de café de baunilha
1 colher de sopa de fermento químico
1 xícara de chá de pinga
Farinha de trigo até dar o ponto
Óleo suficiente para fritar por imersão
Modo de preparo:
Misture bem os ovos, o açúcar e a manteiga.
Acrescente a baunilha, as raspas de limão e laranja e o leite e misture bem.
Adicione a pinga e o fermento.
Vá adicionando a farinha e sovando até a massa ficar lisa e parar de grudar nas mãos. Deixe descansar na geladeira envolta em filme plástico por pelo menos meia hora.
Cilindre a massa até formar tiras bem finas. Caso não tenha cilindro pode abrir com o rolo até a espessura que desejar.
Corte pequenos retângulos de massa e faca um corte no centro de cada retângulo para deixar o vapor escapar quando for fritar.
Espere o óleo esquentar bem e frite os crostolis por imersão até dourarem.
Finalize polvilhando açúcar.
Tô muito orgulhosa hoje. É aniversário da minha vó. 89 anos. Resolvi fazer um bolo para ela. Do jeito que ela fazia quando a gente era pequeno. Bolo branco com recheio de ameixa e cobertura de chantilly com coco. Bem grande e cheio de camadas e com uma decoração duvidosa. A Natalia lembrou das flores. As rosas que a vó recolhia do jardim dela: uma cor de rosa e uma branca. Não temos mais a rosa do jardim porque a vó não tem mais jardim e sim uma "floresta particular", no seu apartamento onde já vive sozinha há 13 anos. Mas temos aplicativos de entregas capazes de deixar um buquê na portaria do prédio em meia hora. Fiz o bolo com minhas referências de confeiteira e da memória afetiva do bolo da vó, que eu adoro e minha irmã não gosta porque é de ameixa. A irmã que faz aniversário um dia antes da vó e decidiu comer bolo de nozes com baba de moça e cobertura de fios de ovos este ano. Estava delicioso. Esta foi a primeira vez que fiz esse bolo. Caprichei. Fui paciente. Segui a...
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