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Mostrando postagens de junho, 2020

bombocado cremoso

Num ano normal, a esta hora estaríamos todos no sítio. Os homens recolhendo madeira para a fogueira, as tias em suas casas, preparando os quitutes, as primas no barracão, decorando as paredes e o teto com balões e bandeirolas e as mesas com toalhinhas xadrez. Minha mãe bem louca limpando tudo e preocupada que era pouca comida, apesar do panelão de dois quilos de salsicha com molho que ela começaria a preparar um dia antes. Lá pelas oito da noite o povo começaria a chegar, trazendo as comidinhas típicas juninas: cachorro quente, pipoca, bolo de fubá, paçoca, pé de moleque. Na nossa família tem a assorda da tia Ottorina, que não pode faltar: é uma torta feita com pão de forma e recheada com queijo muçarela e frango desfiado bem temperadinho. É a primeira a acabar.  O tio Eliseo começaria a preparar o vinho quente no fogãozinho, ao lado da tia Thelma, que é a responsável pelo quentão. A tia Marisa, que já teria preparado um bolo, faria o chocolate quente para as crianças, que mai...

croquete de queijo

O telefone fixo tocou aqui em casa hoje cedo e quando fui atender, a ligação caiu. Na hora lembrei do "alô, é da Funai?". Uma piada interna minha e da Su. A piadinha me transportou para os nossos 20 anos, quando morávamos juntas no Amaralina. Rua Pará. Primeiro andar. Apartamento 103. Janela da sala com vista para o telhado da garagem. Janela da cozinha com vista para o portão da garagem, que batia violentamente e incomodava quem dormia no quarto da frente, no caso, eu. Era na cozinha que ouvíamos tudo o que acontecia na casa dos vizinhos. Tudo mesmo. Provavelmente eles também ouviam todas as nossas conversas, apesar de sermos bem discretas.  Lembrei que mudamos no início de dezembro, no dia do primeiro amigo secreto que participei com os colegas da redação do jornal. Fui trabalhar com uma sandália preta da havaianas naquele dia porque estava atrasada por conta da mudança e meu quarto era uma bagunça de caixas e malas. Um colchão no chão e um guarda-roupas das Casas Bahia ...

creme de cebola caseiro

Ela faz das dificuldades da vida uma arte. De mansinho, ela é capaz de te acalmar com um abraço leve e carinhoso. Quando você menos espera, está sentado na mesa da cozinha e na sua frente tem pão, frios, manteiga, requeijão, café adoçado, leite, bolo. E refrigerante, se preferir. Ou uma travessa de macarrão a bolonhesa ao lado de uma assadeira cheia de coxas e sobrecoxas de frango assado com batatas. Ou um belo pedaço de carne de porco assada.  Sempre tem um copo de cerveja gelada te esperando na casa da tia Thelma. E longas conversas despretensiosas, contadas ao lado do tio Luciano. Ela, com a voz calma, herança da mãe japonesa, ele falando com as mãos, italiano que é. Ela ainda lembra daqueles dias em que as três sobrinhas passaram uma semana das férias de verão na casa dela, brincando com a filha. Eu também nunca esqueci. Foram muitos geladinhos de chocolate e um bolo floresta negra. Aprendemos a fazer bombom e dar nozinhos na massa antes de assar bolachinhas de pinga. ...

pão de fermentação natural

Ganhei um pão. Ganhei fermento natural. Ganhei limões. Ganhei companhia e ouvi histórias. Ganhei muito mais do que ofereci e isso me deu a certeza de que surtar na pandemia foi a melhor coisa que me aconteceu. Do medo de não dar conta, me vi escolhendo cds antigos para ouvir na estrada. Me vi separando roupas que encheram uma mala mas nunca foram tocadas em 21 dias. Me vi comprando um bolo simples para presentear minha mãe. Um bolo feito por uma atriz e diretora paulistana que uniu o colorido singelo da aquarela com o sabor forte do cacau black para sobreviver enquanto os teatros estão fechados. Me senti inspirada por ela. No surto, me vi diante do "mundo", a carta mais completa do tarô. A carta que me mostrou que tudo o que eu estava sentindo muito antes da pandemia era tão verdadeiro quanto as contas que não param de chegar. E melhor que isso, que as vontades que crescem no coração são tão possíveis de realizar quanto o pagamento das mesmas contas, qu...