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Mostrando postagens de maio, 2020

la bella polenta

A meta de uma crônica por dia é difícil de cumprir, especialmente trancada em casa. Então é preciso vasculhar a memória e buscar lembranças queridas para alentar o coração ansioso por reencontrar pessoas. Há 19 dias vim para São Paulo quarentenar com meus pais. Estava muito difícil ficar sozinha em casa. Precisava de um colo. E daí que aqui no apartamento dos meus pais tem café da manhã, almoço, café da tarde e janta todo dia. Sozinha em Londrina eu tomava café na hora do almoço e almojantava no fim da tarde. Economia de calorias que na verdade era falta de apetite mesmo. Aqui eu como mas não é que sinta aquela fome. Sinto mesmo é tristeza com as notícias, mas comer é uma fuga. Então eu como. E uma de nossas comidas preferidas é polenta. Desde pequena ouço meu pai contar da polenta que a nonna fazia no sítio. E que na hora do café da manhã a sobra da janta ia para a chapa quente e mergulhava no leite. Coisa de italiano de família pobre porque polenta é ...

arroz ao forno

Dizem que somos parecidas e por isso brigamos muito. Já discutimos a relação tantas vezes, que hoje em dia seria até ridículo tentarmos convencer uma a outra sobre quem está certa e quem está errada. No fim, o abraço sempre vem. Minha melhor lembrança com minha mãe é o dia em que vimos a Torre Eiffel se iluminar em plena primavera parisiense. Só nós duas. Depois de um dia de muita caminhada por museus. Naquele dia, decidimos ficar na rua até mais tarde para tentar ver o por do sol. No calor, os dias nas cidades europeias são bastante longos e foi preciso esperar até as dez da noite para ver a torre mais famosa brilhar. Naquele momento, minha missão estava cumprida e o que viveríamos no restante da viagem seria bônus. Cresci ouvindo minha mãe reclamar da vida. O quanto era difícil dar de comer para a gente - eu e minha irmã éramos muito frescas. O quanto dava trabalho levar a gente na escola - morávamos num bairro vizinho e o trânsito de São Paulo era rea...

bolo de chocolate e rum

Meu amigo vai quarentar esse ano assim como eu. Portanto, temos referências muito parecidas, além do fato de sermos jornalistas, termos trabalhado lado a lado por alguns anos e sermos de família italiana. Fora nosso cabelo louro e nossos olhos claros, além da nossa amiga ansiedade, dividimos também a paixão pela cozinha. Principalmente porque gostamos de comer bem. Dias atrás ele compartilhou uma receita bastante interessante, batizada por ele de "bolo americano". Ele combinou a massa de cacau e rum com recheio de doce de leite argentino. Usou pasta de amendoim e mapple syrup e a cobertura levou café e chocolate. " A forma de bolo comprei em Ciudad del Este e usava, coincidentemente, minha camiseta do Paraguai ao cozinhar. Não usei nada dos EUA porque não gosto deles", contou o amigo. Eu ri. Como ele sempre se aventura pelos salgados e é consumidor assíduo dos meus doces, fiquei intrigada com o bolo. Mas sabia que tudo que viesse dele ser...

gnocchi di patate

"Chega de conversa, vão dormir." Depois da bronca, a gente olhava uma para a cara da outra, dava risada e ia deitar. Não sem antes rezar. Eu o fazia na cama mesmo, mas a Su e a Ne ajoelhavam em frente ao quadrinho do anjo da guarda. E ao final sempre diziam: "Durmam com os anjos".  Era sempre assim quando chegávamos na casa da tia Ottorina, em Pedrinhas. Normalmente viajávamos à noite. Saíamos de São Paulo por volta das seis da tarde e meia-noite encontrávamos a Su no sofá da sala, ainda acordada, nos esperando. Às vezes a Thais estava com ela.  Enquanto os adultos conversavam na cozinha, nós quatro íamos para o quarto conversar. E fofocar sobre a escola e os meninos bonitos que a gente gostava. E contar piadas. A gente ria até de madrugada. E mesmo estando no último quarto do comprido corredor de cinco cômodos, o barulho incomodava o tio Adriano, que dormia no primeiro aposento. E lá vinha a tia mandar a gente para a cama. "Vocês têm o dia inteiro para ...

carne assada com batatas coradas

Ela é miúda, tem cabelos finos, brilhantes olhos azuis e uma personalidade forte: uma bela combinação dos genes do pai português e da mãe italiana. Foi da minha vó materna que herdei a teimosia. Com quem sempre bato de frente, como neta mais velha. Resultado de um amor exagerado - das duas, eu creio. Era a vó Therê que preparava pizza de fogão para mim nos fins de semana em que eu dormia na casa dela. Chegava no sábado, quase na hora do almoço, depois da catequese, e ficava até o fim da tarde de domingo. Era com ela e com o vô Milton que assistia Silvio Santos. Para ela eu contava meus segredos da adolescência, enquanto conversávamos na mesa da cozinha. É com ela que divido o quarto quando estamos no sítio dos meus pais.  Therê é uma senhora perto dos 90 anos, que inventa dores para chamar atenção, que reclama, que fofoca. Que distorce os fatos para encaixá-los na sua visão de mundo. E que, acima de tudo, sente saudade o tempo todo. Mais uma coisa em comum com a neta mais ...

olá

Estamos em 2020. Um ano que começou trazendo consigo tantas expectativas. Tantos sonhos a serem concretizados. Mas fomos arrebatados por um vírus invisível e mortal que levou milhares de vidas e nos deixou com medo. Vivemos isolados. E quando saímos, precisamos usar máscaras e andar com um frasco de álcool em gel na bolsa. A recomendação é lavar bem as mãos. E manter o distanciamento social. Abraços, nem pensar. E nesse momento em que uns se protegem com máscaras de pano, as máscaras invisíveis que muitos usavam para esconder sua realidade começam a cair. E talvez não estejamos preparados para encarar nossos verdadeiros rostos - ou o dos outros. Nada será como antes.  Fiquei 51 dias sozinha em casa. Fechei a cafeteria sem saber quando voltaria a preparar cappuccinos. Sim, há um ano eu gerencio um pequeno café num prédio comercial de um bairro em ascensão numa cidade de médio porte num dos três estados que compõem a região sul do país.  Em casa, mergulhei em mim mesma....