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arroz ao forno

Dizem que somos parecidas e por isso brigamos muito. Já discutimos a relação tantas vezes, que hoje em dia seria até ridículo tentarmos convencer uma a outra sobre quem está certa e quem está errada. No fim, o abraço sempre vem.

Minha melhor lembrança com minha mãe é o dia em que vimos a Torre Eiffel se iluminar em plena primavera parisiense. Só nós duas. Depois de um dia de muita caminhada por museus. Naquele dia, decidimos ficar na rua até mais tarde para tentar ver o por do sol. No calor, os dias nas cidades europeias são bastante longos e foi preciso esperar até as dez da noite para ver a torre mais famosa brilhar. Naquele momento, minha missão estava cumprida e o que viveríamos no restante da viagem seria bônus.

Cresci ouvindo minha mãe reclamar da vida. O quanto era difícil dar de comer para a gente - eu e minha irmã éramos muito frescas. O quanto dava trabalho levar a gente na escola - morávamos num bairro vizinho e o trânsito de São Paulo era realmente muito pesado já naquele tempo. O quanto a gente enchia o saco quando brigava por bobagem - eu e minha irmã costumávamos brigar para ver quem colocava e tirava a mesa da janta. O quanto era sofrido ter que tomar a maior parte das decisões do dia a dia das filhas - meu pai trabalhava mais de 12 horas por dia, chegava cansado e as broncas sempre ficavam por conta dela.

Tinha dias em que ela estava realmente esgotada e deixava transparecer. Estava sempre de dieta e um tanto insatisfeita. Nós não entendíamos aquela tristeza e seguíamos sendo crianças. E criança, vira e mexe, dá trabalho.

Na adolescência, eu não fui nada rebelde, mas brigávamos constantemente. Acho que minha apatia incomodava minha mãe, então ela segurava na minha mão e me conduzia pelo caminho que achava ser o melhor e mais seguro. Na época, eu vivia uma briga interna entre criar coragem de ser quem eu era e fazer o que as pessoas esperavam de mim. E por vezes, paralisava. Então era mais fácil me deixar ser conduzida pela minha mãe. Hoje eu entendo que tanta discussão era o modo dela me dizer que eu poderia ser o que eu quisesse porque eu era, sim, suficiente.

Foi preciso berrarmos uma com a outra para acalmar nossos corações. Para que uma respeitasse o sentimento da outra e eliminasse qualquer cobrança. Já éramos duas adultas se relacionando.

Então, quando troquei o jornalismo pelos doces, ganhei tempo. Tive um ano incrível, de experiências inéditas e ócio criativo. Foi nesse mesmo ano que planejei a viagem que me aproximou definitivamente de minha mãe. Se o sonho dela - que eu ouvia ela bradar desde pequena - era conhecer Paris, eu a levaria até a cidade luz.

Despida de toda necessidade de perfeição, preparei um roteiro que incluía ainda algumas vontades minhas, como visitar o amigo na Irlanda e retornar à Itália.

Passamos também pela Suíça, onde minha mãe foi mimada pela sobrinha, com quem dividiu várias taças de vinho.

Dormimos num hotel caindo aos pedaços em Paris, mas estávamos a cinco minutos do Louvre. Comemos muitas baguetes para economizar no almoço, mas nos deliciamos com vinhos e queijos franceses no jantar. Passamos muitas horas admirando obras de arte em importantes museus, mas esquecemos de visitar os impressionistas. Passeamos de trem, de barco, de ônibus, por jardins de beleza inexplicável. Nos imaginamos romanas, caminhando pelos destroços de uma civilização que já foi a mais importante da história da humanidade. Nos sentimos vitorianas, dividindo éclairs com Maria Antonieta. Ou vivendo como nobres em castelos medievais.

Foi tudo tão especial. Não sei se minha mãe se dá conta do quão importante para mim foram esses dias sozinha com ela, tentando realizar seu sonho, ainda que de maneira incompleta e imperfeita. E talvez por conta de todos os erros de percurso essa viagem será sempre muito especial.

Pode ser que eu nunca conheça o amor de mãe. Mas certamente sei o quanto é potente o amor de filha. Como carregamos tudo que aprendemos em casa, desde pequenos. Como é incondicional e gratuito o que nossas mães sentem por nós. Como é verdadeiro que elas nunca nos abandonarão, nem quando nos tornarmos cruéis.

Como filhos, nos esquecemos que nossas mães são, antes de tudo, mulheres. Seres que carregam seus próprios desejos e angústias e que assim como nós, às vezes não sabem como agir e precisam que peguem em suas mãos e as ajudem a encontrar o melhor caminho.

Quando guiei minha mãe pelas ruas de Paris, me senti guiando a mim mesma para dentro do coração dela. Como ela sempre fez comigo. Hoje, nos tornamos simplesmente duas mulheres caminhando juntas pela vida e com muita história ainda para contar. Afinal, os impressionistas nos esperam.

Separe:

2 xícaras de arroz cozido
1 xícara de molho de tomate
200 gramas de presunto cozido
200 gramas de muçarela
50 gramas de queijo parmesão ralado

Prepare o arroz:
Numa chaleira, ferva 4 xícaras de água. Numa panela média, frite meia cebola picadinha e quando estiver translúcida, acrescente um dente de alho picado. Frite até ficar coradinho e acrescente o arroz. Refogue bem e coloque uma colher de chá de sal. Acrescente a água fervente e deixe cozinhar em fogo médio até secar toda a água. Desligue o fogo, tampe e deixe o arroz descansar por uns cinco minutos.

Prepare o molho de tomate:
Corte meia cebola. Use um cravo para espetar uma folha de louro na cebola. Despeje uma latinha de tomate pelado numa panela pequena, acrescente a cebola e uma colher de chá de sal. Deixe cozinhar em fogo baixo até a cebola ficar translúcida. Se gostar do molho mais liso, bata o tomate no liquidificador.

Montagem:
Num bowl, acrescente o arroz e uma parte do molho, até a mistura ficar molhadinha.

Num refratário, coloque uma camada fina de molho, uma camada do arroz temperado, uma camada de presunto, uma camada de muçarela e mais uma camada de arroz temperado. Repita a operação até completar todo o refratário. Por último, finalize o prato com o queijo parmesão ralado.

Leve ao forno preaquecido a 180 graus Celsius por cerca de meia hora ou até derreter o queijo.

Dica 1: Essa receita é ideal para reaproveitar o arroz que sobrou na geladeira. Você pode substituir os ingredientes por outros de sua preferência, como frango desfiado, carne moída, milho, seleta de legumes.

Dica 2: Você pode optar por usar molho pronto, se tiver muita pressa. Ou não colocar molho algum no arroz. Nesse caso, regue o arroz com um pouco de azeite ou manteiga derretida.

Curiosidade:
De todas as receitas que minha mãe inventava para nos fazer comer quando éramos crianças, arroz ao forno era nossa confort food preferida. Me lembro também da enorme travessa de batatas fritas para o almoço, macarrão com queijinho de terça à noite, espaguete a bolonhesa às quintas e domingos, pizza de pão e pastel da feira aos sábados e salsicha recheada com queijo para acompanhar o arroz e feijão. Uma dieta nada saudável, mas que a gente comia com gosto. Hoje, minha mãe vê a gente comer feliz legumes e verduras - eu ainda reluto um pouco em comer pratos frios -, e lamenta o trabalho que demos na infância. Já eu, comemoro: "Antes tarde do que nunca".

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