Meu amigo vai quarentar esse ano assim como eu. Portanto, temos referências muito parecidas, além do fato de sermos jornalistas, termos trabalhado lado a lado por alguns anos e sermos de família italiana.
Fora nosso cabelo louro e nossos olhos claros, além da nossa amiga ansiedade, dividimos também a paixão pela cozinha. Principalmente porque gostamos de comer bem.
Dias atrás ele compartilhou uma receita bastante interessante, batizada por ele de "bolo americano". Ele combinou a massa de cacau e rum com recheio de doce de leite argentino. Usou pasta de amendoim e mapple syrup e a cobertura levou café e chocolate.
"A forma de bolo comprei em Ciudad del Este e usava, coincidentemente, minha camiseta do Paraguai ao cozinhar. Não usei nada dos EUA porque não gosto deles", contou o amigo. Eu ri.
Como ele sempre se aventura pelos salgados e é consumidor assíduo dos meus doces, fiquei intrigada com o bolo. Mas sabia que tudo que viesse dele seria delicioso. Ele sabe construir sabores tão bem quanto apura e escreve ótimas reportagens. Ou faz podcasts com seus amigos, meio bêbado.
Ele faz aniversário essa semana, mas diz que não quer lembrar disso. Eu não tenho bem certeza da data - creio que é 28 de maio - mas acho que esse bolo que ele construiu com tamanho detalhamento foi sua forma de marcar, ao lado da esposa e da filha de quatro patas, a chegada de uma data importante, num momento estranho. Ainda que ele insista em dizer o contrário.
Esse cara chamado Fábio Eduardo - nome de personagem de novela mexicana - parece meio mal humorado à primeira vista, mas é mais doce que o doce de leite argentino vencido que ele usou no "bolo americano".
Ouviu minhas lamúrias sempre que eu me sentia exausta com os rumos do jornalismo. Me abraçou num 31 de dezembro quando eu chorava de desespero sem saber muito bem o que fazer no plantão de fim de ano no jornal. Me ouviu contar sobre as aulas de gastronomia e trocamos inúmeras receitas nas tardes de trabalho na redação. Esse cara foi escrever sobre agronegócio quando precisei de ajuda e sempre me passava pautas de economia e política. No esportes, era a palmeirense x o corintiano, mas nunca teve treta.
Quando comecei a vender bolachinhas, ele e a Carol tornaram-se meus clientes fiéis, sempre com um conselho para fazer o negócio crescer. Sempre com um abraço, uma palavra amiga, um convite para tomar cerveja e falar mal do governo no boteco. São deles algumas contribuições divertidíssimas na playlist colaborativa dos meus 39 anos.
Por causa deles estou perdendo o medo de cachorro. Impossível resistir aos carinhos da Brizola: uma adolescente de quatro patas, cheia de energia. Um petisco aqui, uma cheiradinha ali, eu entro na casa e ela deita no meu pé. Acaricio seu pelo bem cuidado e sinto que sou reconhecida, apesar de meu medo. Arrisco dizer que já somos amigas.
Depois de compartilhar receitas no grupo dos amigos jornalistas, o Fábio dividiu conselhos e um abraço virtual. Pouco comum a ele, que é sempre muito racional. No fundo eu sempre soube que de bravo ele só tem a cara.
Seu "bolo americano" me lembrou a primeira receita que fiz na vida: a de bolo de chocolate e rum, que aprendi vendo o programa "Cozinha Maravilhosa da Ofélia", na Band, quando tinha uns 12 anos. Ainda umas das minhas receitas de bolo de chocolate preferidas.
Separe:
5 ovos
2 e 1/2 xícaras de chá de açúcar
1 e 1/2 xícara de chá de manteiga
1 xícara de chá de leite
1 xícara de café de rum
3 xícaras de chá de farinha de trigo
1 xícara de chá de chocolate em pó
1 colher de sopa de fermento em pó
Modo de preparo
Preaqueça o forno a 180 graus Celsius
Separe as gemas das claras. Bata as claras em neve e reserve.
Bata as gemas com o açúcar e a manteiga até formar um creme.
Acrescente o leite, o rum e o chocolate em pó. Acrescente a farinha de trigo e o fermento.
Por último, incorpore as claras em neve.
Coloque a massa numa forma untada com óleo e farinha de trigo.
Leve ao forno por cerca de 40 minutos.
Dica 1: como é uma receita pesada, o ideal é usar a batedeira. Mas quem não tiver o utensílio, pode bater o bolo na mão. Só derreta a manteiga para facilitar o processo.
Dica 2: asse o bolo numa forma redonda com furo no meio. Fica lindo e apetitoso. Não precisa nem de cobertura.
Dica 3: se quiser dar uma camada a mais de sabor, prepare uma calda de chocolate. A minha preferida leva 1/3 de xícara de chá de água, 1/3 de xícara de chá de açúcar, 1/2 xícara de chá de chocolate em pó e 1 colher de sopa de manteiga. Coloque tudo em uma panela, leve a panela ao fogo médio e misture até ferver. Siga misturando por mais 4 minutos ou até que a calda desgrude do fundo da panela. Despeje sobre o bolo frio.
Dica 4: como a massa é bastante firme, dá para rechear. Seguindo a dica do Fábio, que tal usar doce de leite? Um jeito bem fácil e bem caseirinho de fazer doce de leite é cozinhar uma lata de leite condensado na panela de pressão. Cubra a lata com água e leve panela ao fogo médio. Assim que começar a chiar, cozinhe na pressão por 30 minutos. Para um doce mais firme, deixe cozinhar por mais uns minutos. Se for leite condensado de caixinha, embrulhe-a com papel alumínio. É preciso dar três voltas de papel alumínio ao redor da caixinha. Cubra com água e cozinhe pelos mesmos 30 minutos.
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