Ela é miúda, tem cabelos finos, brilhantes olhos azuis e uma personalidade forte: uma bela combinação dos genes do pai português e da mãe italiana. Foi da minha vó materna que herdei a teimosia. Com quem sempre bato de frente, como neta mais velha. Resultado de um amor exagerado - das duas, eu creio.
Era a vó Therê que preparava pizza de fogão para mim nos fins de semana em que eu dormia na casa dela. Chegava no sábado, quase na hora do almoço, depois da catequese, e ficava até o fim da tarde de domingo. Era com ela e com o vô Milton que assistia Silvio Santos. Para ela eu contava meus segredos da adolescência, enquanto conversávamos na mesa da cozinha. É com ela que divido o quarto quando estamos no sítio dos meus pais.
Therê é uma senhora perto dos 90 anos, que inventa dores para chamar atenção, que reclama, que fofoca. Que distorce os fatos para encaixá-los na sua visão de mundo. E que, acima de tudo, sente saudade o tempo todo. Mais uma coisa em comum com a neta mais velha.
Eu lembro da minha vó na pia da cozinha preparando almoço, conversando com a mãe dela, em pensamento, enquanto ouvia o programa do Zé Betio no rádio. Sobre seu fogão sempre teve uma panela de arroz e um caldeirão de feijão. Na mesa, sempre tinha uma verdura cozida. Um bife meio sola de sapato que era o preferido do vô. Uma limonada azedinha ou uma laranjada meio aguada. E quando todos os netos estavam lá, tinha polenta mole com queijo da feira. Ou pastel. Ou farofa com linguiça e toucinho defumado, que o vô gostava bem torradinho. A sobremesa era sempre uma fruta. Às vezes tinha mingau de chocolate. Eu não gostava por nada porque era aquele doce simples, feito de amido de milho, que tinha uma crosta por cima com uma textura que me incomodava. Eu não comia, mas as outras crianças sim. E adoravam.
Na mesa da vó de vez em quando tinha manteiga aviação. Que ela passava no pão amanhecido e colocava naqueles torradores que vão direto na chama do fogão. Hoje seriam considerados vintage, mas nos anos 80 eram muito práticos. A vó fazia dezenas de pães torrados com manteiga nos cafés da tarde. Às vezes também tinha bolinho de banana ou coscorão. Duas receitas de massinhas fritas que a vó fazia a olho, como ela mesmo dizia, e que eram deliciosas quando a gente era pequeno.
Mas a receita que não podia faltar nas datas comemorativas, ou quando coincidia de estar todo mundo lá no almoço de domingo, era a carne assada com batatas coradas. Só de lembrar dá água na boca. A vó vive ensinando a gente a preparar, mas ninguém reproduz a receita como ela. Que também conta que sua preparação não chega aos pés da que a mãe dela fazia quando ela era pequena. Originalmente, a receita era da nonna Giustina. E toda vez que a vó Therê preparava, aproveitava para contar a história da família, no Carrão.
Eram 12 irmãos, mas só oito sobreviveram. Quatro homens e quatro mulheres. O vovô Joaquim trabalhava na Loja da China, que pertencia ao irmão dele, o tio Costinha. O tio rico que tinha até casa na Avenida Paulista. A vó conta que a nonna Giustina tinha vindo da Itália com o pai dela quando tinha uns 14 anos. A mãe dela morreu no parto que também vitimou a irmã gêmea dela. Criada pelo pai e pelos tios, a nonna foi parar num navio rumo ao Brasil sem saber o que a esperava. Com ela, somente um baú de roupas. Aqui, pai e filha foram trabalhar numa fazenda de café no interior paulista.
Conta a história que o dono da fazenda se encantou com a beleza da nonna e o pai dela, temendo por sua integridade, resolveu deixar a fazenda e partir para a capital. Ai a história se perde porque a vó nunca contou o que aconteceu com o avô dela. Ela corta sempre para a época em que a nonna Giustina começou a trabalhar como cozinheira na casa do tio Costinha.
O vovô Joaquim era o solteirão bon vivant da família lá em Oliveira de Azeméis e para colocá-lo na linha, o irmão o trouxe para viver no Brasil e trabalhar na loja dele. O tio Costinha via na nonna Giustina um bom partido para o irmão e o casamento foi arranjado. Isso é o que eu me lembro da vó contar.
O casal foi então viver numa casa no Carrão, bairro da zona leste de São Paulo, onde criou os oito filhos. O quintal era enorme e a vó lembra que lá a nonna tratava de porcos, galinhas, árvores frutíferas. Nunca esqueço da vó falando que depois de matar o porco, a nonna guardava a carne em latões de 20 litros cheios de gordura porque não havia geladeira. E que por isso, tudo que a nonna cozinhava com aquela gordura era muito saboroso. Italiana, a nonna também preparava o próprio macarrão. E a carne assada que virou a especialidade da minha avó.
Quando voltou para a casa dos pais - depois de passar uma temporada na casa da irmã mais velha, ajudando a cuidar dos sobrinhos -, minha vó até tentou estudar, mas as preocupações da rotina dificultavam sua concentração. Ela abandonou a escola, onde aprendeu a escrever apenas o necessário para se comunicar. E na adolescência começou a trabalhar.
Pastifício Maria Margarida e Pastifício Vera foram as duas empresas onde a vó aprendeu a preparar macarrão fresco. A vó não conta muito sobre sua vida na fábrica de massas. Todas suas lembranças envolvem a dificuldade dos pais em criar os oito filhos com pouco dinheiro. E seu salário era todo entregue à nonna para ajudar na despesa da casa. Era comum as irmãs mais novas dividirem roupas e sapatos entre si. E quando tinha fruta na marmita, era luxo.
Mas a vó lembra também que como em toda boa família ítalo-portuguesa, vez ou outra tinha festa no quintal, quando os irmãos tocavam harmônica e cantarolavam para as irmãs dançarem. Muitos casamentos aconteceram naquele quintal, que quando eu era pequena, me parecia infinito. Ainda me lembro dos detalhes na mureta da casa da nonna, que para mim era tão grande, que mais parecia um palacete. Coisa de criança nascida e criada em apartamento.
Quando a vó casou, foi morar num quarto, cozinha e banheiro construído pelo meu vô no fundo do quintal da nonna Giustina. Foi lá que meu tio e minha mãe nasceram. Foi lá que minha vó cuidou do meu vô quando ele quase morreu depois de sofrer com as complicações de uma úlcera. A vô conta que só não passou fome naquela época porque mandava as crianças para a casa da frente. Ela conta que o vovô Joaquim percebia que as crianças tinham fome e tascava sopa nelas. Quando a vó começa a contar as histórias, a gente tem as respostas para os muitos porquês de hoje.
A família da minha mãe foi uma das pioneiras do novo bairro que nascia na zona norte da cidade: Parque Novo Mundo. Quando o vô construiu a casa e eles se mudaram do Carrão, a vizinhança não tinha asfalto, água encanada. E era a vó que abastecia a casa enquanto o vô trabalhava.
Com início pobre, as condições foram melhorando conforme os filhos foram crescendo e no fim da vida, o vô deixou duas casas - uma delas na praia - e uma boa pensão para a vó viver sua velhice com independência. De fora, penso que eles tiveram a melhor vida que poderiam ter apesar de todas as dificuldades. De dentro, sei que a amargura muitas vezes transforma minha vó Therezinha na Therê.
Eu também prefiro romantizar as boas lembranças vividas na casa com o jardim de rosas mais bonito da rua. Assim como minha vó sempre fez com as lembranças da infância dela, na casa do Carrão. No fundo, ela sempre preferiu usar os grandes olhos azuis como um filtro para transformar tristeza em fantasia. E assim deixar a vida com um gostinho bom e familiar, como o da carne assada lentamente na panela, sobre o velho fogão.
Separe:
1,5 quilo de coxão mole ou lagarto
3 dentes de alho
1/2 xícara de vinagre vinho tinto
sal
pimenta do reino
folhas de louro
orégano
500 gramas de batatas
azeite
Coloque a carne em um recipiente, acrescente alho picado, vinagre, sal, pimenta e orégano a gosto e espalhe bem por toda a peça. Por fim, coloque as folhas de louro na salmoura e deixe descansar na geladeira.
Coloque uma chaleira com água para ferver em uma das bocas do fogão. Na boca ao lado, esquente uma panela grande e regue com um fio de azeite. Sele bem a carne de todos os lados e pingue pequenas quantidades de água quente na panela enquanto cozinha a carne. Vá virando a carne dentro da panela e conforme a água for secando, vá pingando água quente na panela. Esse processo de cozimento da carne deve demorar pelo menos três horas.
Enquanto isso, lave bem as batatas, descasque-as, corte-as em quatro pedaços menores e cozinhe-as numa panela com água fervente e sal até ficarem macias. Escorra a água e reserve.
Quando a carne estiver quase no ponto, adicione as batatas e finalize o cozimento delas no molho da carne.
Quando carne e batatas estiverem cozidas, desligue o fogo e deixe descansar por alguns minutos. Deve sobrar uma pequena quantidade de molho no fundo da panela.
Retire a carne, corte em fatias finas e sirva com o molho e as batatas coradas.
Dica 1: Prepare a salmoura da carne com um dia de antecedência para que ela absorva todos os sabores dos temperos
Dica 2: Se preferir, pode usar a batata bolinha, que tem o tamanho ideal para esta receita
Dica 3: Arroz branco é um ótimo acompanhamento para este prato, mas na casa da vó Therê, a carne com batatas era a tão esperada mistura para o macarrão de domingo.
Dica 4: Tenha muita paciência para ir virando a carne e pingando a água quente. Não apele para a panela de pressão, ensina a vó, pois o resultado não será o mesmo.
Comentários
Postar um comentário