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la bella polenta

A meta de uma crônica por dia é difícil de cumprir, especialmente trancada em casa. Então é preciso vasculhar a memória e buscar lembranças queridas para alentar o coração ansioso por reencontrar pessoas.

Há 19 dias vim para São Paulo quarentenar com meus pais. Estava muito difícil ficar sozinha em casa. Precisava de um colo. E daí que aqui no apartamento dos meus pais tem café da manhã, almoço, café da tarde e janta todo dia. Sozinha em Londrina eu tomava café na hora do almoço e almojantava no fim da tarde. Economia de calorias que na verdade era falta de apetite mesmo.

Aqui eu como mas não é que sinta aquela fome. Sinto mesmo é tristeza com as notícias, mas comer é uma fuga. Então eu como. E uma de nossas comidas preferidas é polenta. Desde pequena ouço meu pai contar da polenta que a nonna fazia no sítio. E que na hora do café da manhã a sobra da janta ia para a chapa quente e mergulhava no leite. Coisa de italiano de família pobre porque polenta é barata e rende.

Eu já vejo a polenta como outros olhos. Adoro. De todo jeito. É outra confort food que me salva quando não sei o que cozinhar. Assim como macarrão. Então sempre tem um pacotinho de fubá no armário.

A polenta também é tema de uma das minhas festas preferidas do salão paroquial de Pedrinhas. A famosa festa da polenta começou despretensiosa e simples e hoje é um festão com baile e tudo. E um momento em que a minha família se reúne para comer, beber, dançar tarantela e cantar o massolin di fiori. Também não pode faltar a canção da polenta: "quando si mangia la bella polenta, la bella polenta si mangia cosi" e assim vai. A festa acontece sempre no inverno e este ano, por conta da pandemia, deve ser suspensa. E a família lamenta. "Acho que nos veremos só no Natal", dramatiza minha mãe.

Ano passado, na festa da polenta, revi amigos de infância que há anos não via. Os primos das minhas primas. Comemos polenta. Dançamos, bebemos, brincamos com as crianças, lembramos de quando éramos crianças. Foi tão divertido. No meio da festa, um dos irmãos da minha tia foi homenageado pela cidade por sua contribuição em manter as tradições italianas na comunidade. O zio Guglielmo Mondin, um dos idealizadores da festa da polenta e outras festas italianas da cidade, subiu ao palco emocionado. Tinha trabalhado tanto para a festa acontecer mas estava cansado pelo pouco interesse dos mais jovens em manter as tradições. Ele agradeceu a presença dos filhos que vieram de longe para vê-lo e depois dançou a tarantela e cantou o massolin. No fim da festa restamos só nós no salão: Mondins e Guerins. Como sempre. Toda essa comoção para comer uns bons pratos de polenta? Não, a polenta é só uma desculpa para matar a saudade.

Aqui no Novo Mundo, por coincidência, os almoços de quinta-feira foram por minha conta na últimas três semanas. Na primeira quinta fiz polenta com molho de funghi. Na segunda quinta fiz quiche de espinafre e ontem saiu mais uma polenta com molho de calabresa.  Seguindo a receita da tia mais velha, que faz a polenta campeã na família.

Ela mistura tudo mas quem mexe a colher de pau é o tio. E por um bom tempo, uma trabalheira só. O tio já chegou nos 80 e a tia tá bem perto então aqueles almoços regados a polenta, molho de frango caipira e fatias generosas de parmesão acabaram. Mas pedi à prima que pedisse à mãe dela a receita básica da famosa polenta. Ai vai:

Separe:

5 xícaras de chá de água
2 xícaras de chá de fubá
1 colher de sopa de sal

Coloque tudo em uma panela grande, misture bem e leve a panela ao fogo baixo.

Mexa a polenta sem parar e quando ela atingir o ponto desejado, acrescente uma colher de sopa generosa de manteiga e outra colher de sopa generosa de queijo parmesão ralado.

Sirva com o molho de sua preferência: carne moída, frango caipira, calabresa, funghi. Só com parmesão ralado por cima também fica espetacular.

Se sobrar, corte em fatias grossas e leve à chapa para tostar. Se preferir, corte em tiras e frite por imersão em óleo bem quente. É um aperitivo crocante por fora e cremoso por dentro.

Dica: para o meu pai, o ponto ideal do cozimento é quando se forma uma crosta fina sobre a polenta (e uma grossa na panela que dá trabalho para lavar). Ela está firme mas cremosa.

Uma historinha:
Depois de montar os pratos, sempre espalhamos o molho sobre a polenta, carregamos no parmesão ralado e comemos com uma fatia de queijo. Uma garfada de polenta e uma mordida no queijo. Esses dias, reparamos em nossos pratos e demos risada. "Parece uma massaroca", minha mãe disse. "Daquelas massarocas deliciosas", conclui. 


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