"Chega de conversa, vão dormir." Depois da bronca, a gente olhava uma para a cara da outra, dava risada e ia deitar. Não sem antes rezar. Eu o fazia na cama mesmo, mas a Su e a Ne ajoelhavam em frente ao quadrinho do anjo da guarda. E ao final sempre diziam: "Durmam com os anjos".
Era sempre assim quando chegávamos na casa da tia Ottorina, em Pedrinhas. Normalmente viajávamos à noite. Saíamos de São Paulo por volta das seis da tarde e meia-noite encontrávamos a Su no sofá da sala, ainda acordada, nos esperando. Às vezes a Thais estava com ela.
Enquanto os adultos conversavam na cozinha, nós quatro íamos para o quarto conversar. E fofocar sobre a escola e os meninos bonitos que a gente gostava. E contar piadas. A gente ria até de madrugada. E mesmo estando no último quarto do comprido corredor de cinco cômodos, o barulho incomodava o tio Adriano, que dormia no primeiro aposento. E lá vinha a tia mandar a gente para a cama. "Vocês têm o dia inteiro para fofocar amanhã", justificava.
E a gente tinha mesmo todo o tempo do mundo naquela época. Levantávamos cedo, tomávamos um café reforçado, ajudávamos a Su a arrumar a cozinha e montávamos nas bicicletas para iniciar o que chamávamos carinhosamente de via sacra: visitar todas as tias até meio-dia, quando o almoço era servido.
Me lembro de chegar da rua e ajudar a Su a arrumar a mesa: os adultos ficavam na sala de jantar e nós, crianças, na mesa da cozinha. Era uma barulheira só, como qualquer refeição na casa de toda boa família italiana.
Os primos chegavam do sítio, lavavam as mãos e enchiam o prato. O tio era o primeiro a se servir - e a terminar de comer. Não gostava de comida fria. E quando a tia sentava à mesa, o tio já estava na sala, vendo o programa de esportes na tevê. Depois de descansar, ele e os meninos partiam de volta para a roça e a tia seguia nos afazeres domésticos e da igreja. Sempre me perguntei como ela arranjava tempo para fazer tudo cantarolando e ainda rezar por toda a família.
Foi sempre assim a dinâmica na casa da tia Ottorina, que sempre nos recebia nos feriados e férias, desde quando eu era pequena até o início da minha vida adulta. Uma das belas certezas da minha infância era saber que sempre tinha um lugar para mim naquela casa onde meu nonno viveu.
Outra certeza reconfortante era que todo Natal eu buscaria meu presente na árvore que a tia cuidadosamente montava ao lado do mais lindo e detalhado presépio. Até hoje a árvore de Natal da tia Ottorina é a minha preferida e onde sempre encontro um presente com meu nome.
Quando me mudei da casa dos meus pais, fui morar com a Ne, filha mais velha da tia, e depois com a Su, a do meio e minha melhor amiga desde sempre. E foi nessa época que me tornei mais próxima dessa família que tanto amo. Além de me sentir à vontade para pegar água na geladeira, já sei onde ficam os pratos, copos, xícaras e talheres nas cozinhas - a tia tem duas - e onde ela guarda as balas, bolachas e chocolates.
A tia foi a maior incentivadora da parceria Malô, emprestando sua cozinha para que eu e sua caçula Helô preparássemos nossas delícias. Foi uma tarde de verão de muito trabalho e calor intenso regada a limonada gelada da tia. Isso não se esquece. Nem o cheirinho de pão caseiro assando no meio da tarde. Quando o cuco batia quatro da tarde, a tia arrumava a mesa, fatiava o pão e montava um lanchinho para as filhas e as sobrinhas. Pronto. Com a pança cheia poderíamos rodar mais alguns quilômetros de bicicleta ou jogar beisebol no quintal. Sempre tomando cuidado para não acertar as janelas.
Separe:
1 quilo de batatas cozidas
2 ovos
1 colher de sopa de manteiga
1 colher de chá de sal
2 xícaras de chá de farinha de trigo
Lave bem as batatas, cozinhe-as com uma colher de sobremesa de sal até ficarem macias. Amasse-as.
Junte todos os ingredientes: na bancada, coloque a farinha e a batata. Faça um buraco no centro e coloque os ovos inteiros, a manteiga e o sal. Misture tudo com a ponta dos dedos, incorporando bem até formar uma massa firme. Vá acrescentando mais farinha até dar o ponto certo para corte.
Faça rolinhos com a massa e corte pequenas bolinhas.
Numa panela com água fervente e uma colher de chá de sal, acrescente os nhoques e deixem cozinhar até subirem. Retire os nhoques com o auxílio de uma escumadeira e reserve. Regue-os com um fio de azeite ou uma colher de sopa de manteiga para não grudar.
Acrescente o molho de sua preferência e sirva.
Dica 1: Escolha batatas do tipo Asterix. Elas são mais sequinhas e facilitam o preparo da massa do nhoque.
Dica 2: Prepare um molho bechamel, o famoso molho branco. Para isso, misture em uma panela média uma colher de sopa de manteiga a uma colher de sopa de farinha de trigo e deixe cozinhar até formar uma massa firme e corada, o chamado roux. Acrescente uma xícara de leite em temperatura ambiente aos poucos, mexendo sempre. Se preferir um molho mais encorpado, use menos leite, se quiser mais líquido, use mais leite. Ao final, acrescente uma colher de chá de sal e o quanto baste de noz moscada.
Dica 3: Se quiser incrementar ainda mais o nhoque, tempere-o com o molho de sua preferência, acrescente queijo parmesão ralado e leve ao forno preaquecido a 180 graus Celsius para gratinar por cerca de 15 minutos.
Que lindo Mari, Pedrinhas é onde estão as melhores lembranças, e a saudade ta forte em nos reunirmos seja pra almoçar, seja pra tonar café na casa das tias ou os churrascos e carnasitios no seu pai. As festas juninas então, saber que nao poderemos nos reunir esse ano, ja ta me dando um aperto, mas, esse blog veio num momento que precisamos de conforto e de lembrar de todas essas memórias, rezando para tudo isso passar e passarmos todos bem por isso, para novamente criarmos novas memórias. Estou amando todas as crônicas. Beijo.
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