Estamos em 2020. Um ano que começou trazendo consigo tantas expectativas. Tantos sonhos a serem concretizados. Mas fomos arrebatados por um vírus invisível e mortal que levou milhares de vidas e nos deixou com medo. Vivemos isolados. E quando saímos, precisamos usar máscaras e andar com um frasco de álcool em gel na bolsa. A recomendação é lavar bem as mãos. E manter o distanciamento social. Abraços, nem pensar. E nesse momento em que uns se protegem com máscaras de pano, as máscaras invisíveis que muitos usavam para esconder sua realidade começam a cair. E talvez não estejamos preparados para encarar nossos verdadeiros rostos - ou o dos outros. Nada será como antes.
Fiquei 51 dias sozinha em casa. Fechei a cafeteria sem saber quando voltaria a preparar cappuccinos. Sim, há um ano eu gerencio um pequeno café num prédio comercial de um bairro em ascensão numa cidade de médio porte num dos três estados que compõem a região sul do país.
Em casa, mergulhei em mim mesma. Foi um processo lento e doloroso. Nas primeiras semanas dizia a mim mesma que deveria retomar a produção das bolachinhas artesanais que comandava antes de comprar a cafeteria, que teria um estoque para vender quando retomasse os trabalhos no café. Que estava tudo sob controle. Mas não foi bem assim. Paralisei.
Só conseguia levantar da cama para ver as notícias. Número de infectados e de mortos aumentando diariamente. Governo sem liderança. Desespero. Corri atrás dos auxílios emergenciais e me tranquei em casa. Precisei suspender o contrato da funcionária que havia registrado na primeira semana do ano. Contratá-la representava um passo à frente para o crescimento do negócio que eu tentava fazer prosperar há seis meses. Uma decisão calculada, mas que em três meses não havia trazido o tão desejado alívio na rotina. Eu queria mais tempo. Para fazer tantas coisas que não só trabalhar. Não foi bem assim.
Cafeteria fechada, precisei repensar a vida. E foi buscando ajuda online que me vi assistindo a vídeos de psicólogos e gurus explicando como lidar com a ansiedade em tempos de pandemia. Desabafei com amigos, ouvi conselhos - e verdades, meditei, retomei as aulas de flamenco pela internet, fiz exercícios de pilates e ioga no tapete da sala, joguei búzios e tarô por meio do aplicativo de mensagens. Recebi reiki numa live do aplicativo de fotos. Chorei muito.
E depois de deixar a ansiedade aflorar como nunca, imaginando dezenas de soluções para o pós-pandemia, me vi acendendo uma vela para iluminar minhas sombras. Reconheci todos os medos e abracei as imperfeições. Pela primeira vez me amei de verdade. Você deve estar pensando que surtei. Sim, foi um surto daqueles mas a partir daquele momento, tudo ficou claro: não queria a mesma vida que estava vivendo antes da pandemia.
O que preciso fazer para não me ver tão sozinha novamente, me perguntei. Numa sexta-feira, depois de quase um mês dentro de casa checando diariamente se havia sido aprovada pelo governo para receber o auxílio emergencial, fui para a cozinha. Com os poucos ingredientes que me restavam no armário, produzi alguns quilos de bolachinhas sem compromisso. Foi um momento de pura concentração e calma. Naquelas poucas horas misturando manteiga, açúcar, farinha e baunilha, tudo começou a fazer sentido novamente. E a música de fundo me transportou para lembranças felizes com pessoas que eu amo. Eu respirei.
Naquele final de semana, contrariando todas as recomendações dos profissionais de saúde, embalei a produção, montei no carro, busquei a afilhada como companhia e fomos entregar bolachinhas aos amigos. Alguns estavam cochilando, outros de pijama em frente à tevê, outros brincando com os filhos no quintal, outros ficaram surpresos, mas todos sorriram e me abraçaram com os olhos. E do lado de fora dos portões recebi o afeto que eu tanto precisava para me acalmar.
Foi nesse dia que entendi que todas as decisões do passado me levaram à vida independente que levo hoje. E se terei que encarar minha solitude, que eu possa me conectar com quem amo sempre que possível, pelo menos. E o meu jeito de garantir essa conexão é preparar doces e escrever. As bolachinhas - que eu havia abandonado meses antes para me dedicar ao café - me salvariam mais uma vez. E dessa vez eu não estaria disposta a voltar atrás.
Todo mundo me achou precipitada. Todo mundo me fez repensar. Todo mundo me pediu calma. Todo mundo disse que eu estava jogando uma baita oportunidade fora por conta de um capricho e que capricho não paga conta. Mas minha intuição continuava gritando mais alto que todos os outros ruídos. Eu, que a deixei de lado por tanto tempo por conta do medo, precisava ouvi-la com urgência. Ou me veria chorando no sofá, olhando o bosque, de novo.
Todas as consultas à alma me deram a mesma resposta: qualquer caminho que eu escolhesse seria vitorioso. E isso me fortaleceu para abandonar o medo. Foi quando arrumei a mala, dei água às plantas, montei no carro e peguei a estrada para reencontrar meus pais. Continuaria a quarentena voluntária ao lado deles, de quem mais senti saudade de abraçar em 51 dias. Deixaria de estar isolada por completo para dividir angústias e planos, para ouvir conselhos e receber carinho - dessa vez de perto. A solidão doeu mas me acordou.
A pandemia resiste. Tudo é desconhecido. Enquanto escrevo, milhares de pessoas lutam pela vida nos hospitais. Milhares de profissionais da saúde se afastam de quem amam para cuidar do outro, milhares não resistem. Cientistas buscam incessantemente pela cura. E eu me isolo para proteger os meus. E no isolamento, escrevo.
Vendo minhas lágrimas, meu pai sugeriu: "Filha, você não será verdadeiramente feliz se deixar de escrever". Eu sorri e disse a ele que sim, que além de voltar a confeitar, voltaria a escrever. E já tinha um projeto em mente, que reuniria essas duas paixões.
Essas crônicas que você vai ler estavam guardadas em mim muito antes dessa imersão meio surtada ao inconsciente. Mas creio que colocá-las para fora justamente agora mostra o início de um novo ciclo. Que essas histórias tão singelas te inspirem, como inspiraram a mim. E que você seja feliz na sua jornada, como eu me proponho a ser na minha. Um dia de cada vez.
Mariana vc tem um grande dom de colocar no papel tão claro e belo a vida de uma pessoa vc . Já pensou em escrever um romance ???? Peço a Deus nosso Senhor que ilumine tua vida teus passos ,siga em frente fazendo o que vc gosta . Você e uma grande escritora . Parabéns ...bjs...
ResponderExcluir