Num ano normal, a esta hora estaríamos todos no sítio. Os homens recolhendo madeira para a fogueira, as tias em suas casas, preparando os quitutes, as primas no barracão, decorando as paredes e o teto com balões e bandeirolas e as mesas com toalhinhas xadrez. Minha mãe bem louca limpando tudo e preocupada que era pouca comida, apesar do panelão de dois quilos de salsicha com molho que ela começaria a preparar um dia antes.
Lá pelas oito da noite o povo começaria a chegar, trazendo as comidinhas típicas juninas: cachorro quente, pipoca, bolo de fubá, paçoca, pé de moleque. Na nossa família tem a assorda da tia Ottorina, que não pode faltar: é uma torta feita com pão de forma e recheada com queijo muçarela e frango desfiado bem temperadinho. É a primeira a acabar.
O tio Eliseo começaria a preparar o vinho quente no fogãozinho, ao lado da tia Thelma, que é a responsável pelo quentão. A tia Marisa, que já teria preparado um bolo, faria o chocolate quente para as crianças, que mais tarde os adultos batizariam com cachaça para esquentar porque estaria bem frio no sítio.
Todo mundo estaria vestido a caráter e começaria a saga das fotos na frente da fogueira. E lá pelas dez a Sílvia puxaria a quadrilha. E eu dançaria com alguma prima solteira como eu ou com a vó, que não ficaria parada por nada. A gente daria muita risada. E tentaria fazer uma foto de família com a fogueira de fundo, mas não daria muito certo porque é muita gente e alguns são bem impacientes. Minha mãe não relaxaria um minuto sequer, preocupada se todos estariam bem servidos. Mas mais uma vez teríamos exagerado e as sobras dariam para fazer outra festa junina igualzinha no dia seguinte.
Não lembro ao certo quando começou a tradição de juntar todo mundo no sítio no feriado de Corpus Christi para fazer a festa junina dos Guerin. Lembro que fizemos umas duas festas no sítio do tio Adriano antes do meu pai comprar o sítio dele. Ai, depois disso ficou mais fácil transferir as comemorações para o sítio do tio Enzo. Começou com a festa junina, depois com a véspera do Natal e há dois anos, o carnasítio.
Esse pedaço de terra com uma casa no meio e um barracão enorme para guardar maquinários agrícolas - e fazer festas -, se tornou uma bênção ao meu ver. Eu agradeço por aquela casa todo dia nas minhas preces. Finalmente temos um lugar para receber os tios, os primos e os amigos que sempre nos receberam em suas casas todos esses anos em que visitávamos a cidade de nome diminutivo.
Na festa junina, os tios e primos de São Paulo também vêm e todo mundo pula fogueira junto. Dá um certo trabalho organizar, tem sempre uma encrenca, mas no final dá tudo certo e todo mundo fica esperando a festa do ano seguinte.
Sempre sobra copo, prato, talher, guardanapo. Mas minha mãe compra tudo de novo no ano seguinte e reclama que não tem lugar para guardar depois. Ano passado tivemos a ideia de cada um levar sua própria caneca para gerar menos lixo. Alguns acharam que não daria certo, mas deu tão certo que repetimos no carnasítio. A ala jovem da família é bastante engajada devo dizer - ou frequentam tantas cervejadas que sobram canecas no armário. Mas esse ano não vamos tirar as decorações do armário e não teremos fogueira no sítio. E tá todo mundo se sentindo meio órfão.
As festas juninas são uma importante tradição brasileira. Uma festa tão singela e tão bela ao mesmo tempo. Tão deliciosa por seus quitutes e pela quadrilha. Uma comemoração em que todo mundo dança, não importa idade, gênero, posição social.
Me lembro de sempre ter uma fogueirinha em junho na casa da vó Therê no Novo Mundo. A vó fazia questão. E queimava uns pauzinhos como ela mesmo dizia. Tinha pipoca, bolo de fubá, pé de moleque e quentão. E a família reunida no quintal. Que saudade de ouvir a vó cantarolar: "Com a filha de João, Antônio ia se casar, mas Pedro fugiu com a noiva na hora de ir pro altar". Puxa, que saudade de subir no telhado e ver os balões passeando no céu de São Paulo. "O balão vai subindo, vai caindo a garoa, o céu é tão lindo, a noite é tão boa. São João, São João acende a fogueira do meu coração", a vó cantava.
E quando comecei a trabalhar no jornal, todo ano a associação de funcionários organizava uma festa junina enorme. Por alguns anos ajudei diretamente na produção da festa: desde arrecadar prendas a passar a tarde inteira no sol pregando bandeirinhas e organizando mesas e cadeiras para depois, à noite, trabalhar na barraca de bebidas ao lado do amigo colunista social. Como era divertido servir uma cerveja gelada para um convidado e depois reclamar do frio que congelava as mãos. E dias depois fazíamos a nossa própria festa junina com os colegas de redação. Aí tinha quadrilha, com direito a noivos e padre.
Anos atrás eu tive a oportunidade de estar em Aracaju em junho com a prima e participamos de uma festa junina típica nordestina. Completamente diferente da nossa do sudeste, mas tão linda que ficou marcada na memória. Lá as quadrilhas são profissionais: todos muito bem vestido e dançando o verdadeiro forró. Lindo demais de ver. Espero ter a chance de ver ao vivo mais uma vez e acho que todo brasileiro deveria assistir uma quadrilha nordestina de perto. É brasilidade na veia.
Hoje vou receber uma "festa junina na caixa" idealizada pela querida Ceci. Ela ama tanto festa junina que decidiu dividir com os amigos alguns quitutes e uma playlist para a gente festar cada um na sua casa, por conta da pandemia. Tô aqui ouvindo as músicas por ela escolhidas e chorando de saudade da minha infância, da minha vó, que me ensinou a gostar de fogueira e festa junina. Mas é um choro bom, de carinho. E como a gente precisa de carinho hoje. Compartilhei a playlist com a Helô, que também ama festa junina, e ela também se emocionou. Ainda que não tenhamos nossa quadrilha esse ano, é bom saber que as festas no sítio são importantes para mais pessoas. Algumas tradições precisam se manter vivas. Ainda que dentro de uma caixa!
Separe
3 ovos
3 xícaras de chá de leite
1 e meia xícara de chá de fubá
3 xícaras de chá de açúcar
1 xícara de chá de coco ralado
Meia xícara de chá de parmesão ralado
1 colher de sopa de manteiga
3 colheres de sopa de farinha de trigo
1 colher de sopa de fermento
Modo de preparo
Preaqueça o forno a 180 graus Celsius.
Unte uma assadeira retangular grande com manteiga e farinha de trigo.
Bata todos os ingredientes no liquidificador e despeje na assadeira. Complete com mais 2 xícaras de chá de leite.
Asse por pelo menos 40 minutos e então faça o teste do palito: espete um palito ou um garfo no centro do bolo, se sair seco, o bolo está pronto. Se não, deixe assar por mais uns minutos.
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