Ela faz das dificuldades da vida uma arte. De mansinho, ela é capaz de te acalmar com um abraço leve e carinhoso. Quando você menos espera, está sentado na mesa da cozinha e na sua frente tem pão, frios, manteiga, requeijão, café adoçado, leite, bolo. E refrigerante, se preferir. Ou uma travessa de macarrão a bolonhesa ao lado de uma assadeira cheia de coxas e sobrecoxas de frango assado com batatas. Ou um belo pedaço de carne de porco assada.
Sempre tem um copo de cerveja gelada te esperando na casa da tia Thelma. E longas conversas despretensiosas, contadas ao lado do tio Luciano. Ela, com a voz calma, herança da mãe japonesa, ele falando com as mãos, italiano que é.
Ela ainda lembra daqueles dias em que as três sobrinhas passaram uma semana das férias de verão na casa dela, brincando com a filha. Eu também nunca esqueci. Foram muitos geladinhos de chocolate e um bolo floresta negra. Aprendemos a fazer bombom e dar nozinhos na massa antes de assar bolachinhas de pinga. Ficávamos imundas de terra brincando no quintal e após cada banho passávamos por uma inspeção para saber se tínhamos lavado a orelha direito.
Teve um dia que usei uma florzinha roxa do jardim como matéria-prima do meu bolo de barro e fiquei tão empolgada com o líquido branco que saía da planta, que bebi como se fosse leite. Quando a tia ficou sabendo, me deu logo um copo de leite de vaca puro para beber dizendo que a planta era tóxica. Tóxico para mim era leite sem achocolatado. E demos risada. No fim daquelas férias até roupinhas de boneca aprendemos a costurar.
Morar perto desses tios é me sentir em casa sempre que preciso de colo. Se não tem a mãe, tem a tia para me acalmar e me dizer que vai ficar tudo bem. Nunca esquecerei o dia em que me senti meio perdida, sem saber qual decisão tomar diante de um dos muitos dilemas que acometem a vida adulta. Montei no carro e dirigi sem rumo pela cidade, quando de repente me vi parada na frente da casa dos tios, na Rua Suíça. A simpática casinha de madeira onde já comemorei muitos aniversários desde que deixei a casa dos meus pais.
Bati palma e lá veio a tia abrir o portão. Eu, em lágrimas, tentei explicar para ela minha angústia e ela simplesmente me abraçou. Me levou para cozinha, me sentou e me deu café. Ouviu minhas lamúrias, me deu almoço e me colocou na cama. Fez massagem nos meus pés até eu dormir e me deixou descansar até o momento em que me sentisse pronta para encarar a realidade novamente. Foi um resgate lindo num dia triste que nunca esquecerei.
Não sei se foi a convivência com os muitos irmãos e a casa sempre cheia, se foram os recomeços nas diversas cidades onde morou, se é o trabalho duro de costureira em casa, ao lado do tio, se é a necessidade de se acostumar diariamente com a distância da única filha e dos netos, que imigraram, veja só, para a Suíça, que deixou a tia pronta para responder qualquer aflição com uma palavra de força. Ou se ela é essa fortaleza doce simplesmente porque sim.
Dona de muitos dons, a tia Thelma é capaz de fazer puchero, sukiaki ou pudim de leite condensado com a mesma calma que opera sua máquina de costura. Quando eu penso nela penso em intuição. É belo vê-la cozinhar, costurar, aconselhar e beber cerveja com uma classe que é só dela.
É divertido ouvi-la contar sobre o dia em que viu ETs numa noite escura, na fazenda. É acolhedor saber que sempre haverá uma marmitinha para eu levar para casa no fim de tarde de domingo. E uma nova história do sítio do nonno para me acompanhar no caminho de volta para casa.
Separe:
1 cebola grande picada
1 xícara de chá de óleo
1 colher de chá de sal
2 xícaras de farinha de trigo
Frite a cebola no óleo numa panela bem quente até elas ficarem bem amarelinhas. Acrescente o sal e a farinha de trigo e misture bem. Desligue o fogo. A mistura deve parecer uma farofinha.
Dica 1: Você pode usar esse creme caseiro de cebola para temperar carnes. A tia Thelma costuma temperar as coxas e sobrecoxas de frango com esse creminho e levar para assar em forno médio até dourarem bem. Umas batatinhas distribuídas na mesma assadeira em meio aos pedaços de frango compõem o acompanhamento perfeito para a macarronada do domingo.
Dica 2: Você pode guardar essa mistura num pote hermeticamente fechado na geladeira por uns 15 dias.
Que lindo Mari, mas será que mereço todo esse elogio? Obrigada linda, esse amor todo pode ter certeza que é recíproco, bjos minha linda
ResponderExcluirO Thelma o que a Mariana disse e' a pura verdade vc e' tudo isso admiro muito vc cunhada . Você e' DEZ com letra maiúscula . Bjs !!!!
ResponderExcluir