Pular para o conteúdo principal

croquete de queijo

O telefone fixo tocou aqui em casa hoje cedo e quando fui atender, a ligação caiu. Na hora lembrei do "alô, é da Funai?". Uma piada interna minha e da Su. A piadinha me transportou para os nossos 20 anos, quando morávamos juntas no Amaralina. Rua Pará. Primeiro andar. Apartamento 103. Janela da sala com vista para o telhado da garagem. Janela da cozinha com vista para o portão da garagem, que batia violentamente e incomodava quem dormia no quarto da frente, no caso, eu. Era na cozinha que ouvíamos tudo o que acontecia na casa dos vizinhos. Tudo mesmo. Provavelmente eles também ouviam todas as nossas conversas, apesar de sermos bem discretas. 

Lembrei que mudamos no início de dezembro, no dia do primeiro amigo secreto que participei com os colegas da redação do jornal. Fui trabalhar com uma sandália preta da havaianas naquele dia porque estava atrasada por conta da mudança e meu quarto era uma bagunça de caixas e malas. Um colchão no chão e um guarda-roupas das Casas Bahia era só o que eu tinha naquele ano. Só não: eu tinha a Su, no quarto ao lado.

Quando mudei definitivamente para Londrina em outubro de 2003, a Su me recebeu em sua quitinete no oitavo andar do Bastistela, na Belo Horizonte. Comprei o colchão e montei o guarda-roupas num cantinho do quarto da prima, que tinha uma cama de solteiro e uma cômoda do outro lado do quarto. Dividimos esses espaço por uns dois meses e meio até encontrarmos nosso apê no Amaralina.

Comprei uma TV nova - 24 polegadas, de tubo - e instalei a Net para poder acompanhar as temporadas de Friends, minha série favorita. E que me levava para mais perto da minha mãe: toda terça, às oito da noite, depois de tirar a louça da mesa e arrumar a cozinha, deitávamos no sofá para rir das peripécias dos cinco amigos. Era nosso momento juntas quando eu ainda morava na capital.

Pois a Su não ligava para TV. Já no Amaralina, ela chegava do trabalho, tomava banho, fazia janta e deitava no sofá para esperar o namorado dela chegar e jantarmos todos juntos. Eu convidava: "Vamos ver um filme?". Ela concordava mas cinco minutos depois estava babando no travesseiro. Literalmente.

Quando o Re chegava, comíamos, eu arrumava a louça e eles namoravam um pouco vendo a novela das nove até ele ir embora. Ela ia se arrumar para dormir e ficava esperando ele ligar: "Chegou? Então dorme com os anjos e sonha comigo". Foi assim por três anos. Tempo que vivemos juntas no Amaralina.

Nesse tempo tivemos outros companheiros de apê e em 2007, o 103 ficou apertado. A Su começou a passar os fins de semana na casa do Re. Às vezes eu ia para lá também, normalmente nos almoços de domingo, quando ele cozinhava. E ficávamos eu, a Su, o Re e Paula, prima dele que tinha vindo de Penápolis estudar na UEL, conversando e vendo filmes na TV, esperando o domingo passar. A Su nunca gostou do domingo à noite: ela não dormia direito porque a folga tinha acabado e logo ela teria que recomeçar a dura rotina da semana. Ela sempre trabalhou muito. Saía cedo e voltava tarde. Por isso dormia vendo filmes ou a novela.

Enquanto éramos só nos duas, tínhamos nossa rotina. Ela saía cedo, eu trabalhava à tarde. Ela cozinhava, eu lavava a louça. Às sextas, limpávamos a casa e eu deixava o banheiro para ela. Mas colocava a roupa para lavar. Às quartas, comíamos batata recheada da promoção no Royal e aos sábados, passeávamos pelo Calçadão depois de tomar café da manhã. Almoçávamos na rua - o Re olhava todos os restaurantes e acabava sempre comendo batata recheada - e caminhávamos de volta ao Amaralina. Ela cochilava, enquanto eu e o Re víamos um filme qualquer até a hora do café da tarde.

A Su gostava de jantar pipoca ou miojo com requeijão de vez em quando. E eu gostava quando ela fazia carne de panela com batata. Sempre tinha arroz e feijão, que aprendi a cozinhar com ela, e aos domingos, macarrão com molho bolonhesa da tia Ottorina. Nosso freezer tinha um estoque de potinhos de margarina cheios de molho.

Quando eles iam para Penápolis visitar a família do Re, traziam doce de leite e bolachinha de nata da dona Ana. Eu aproveitava e me esbaldava. Deixávamos as tupperwares num cantinho da cristaleira Itatiaia que compramos juntas nas Casas Bahia em seis prestações. Que saudade.

Tinha pizza de sexta à noite. Tinha bolinho de queijo que a tia mandava pronto e era só fritar. Tinha nhoque do Re. Tinha cerveja, tinha festa. Meus amigos eram seus amigos e vice-versa. Teve tanta história. E mesmo já não morando juntas há 13 anos, eu ainda sinto essa amizade presente em minha vida todo dia. Seja nos desenhos da reginaldinha Isa espalhados pelo meu apê da São Paulo, seja quando faço bolachinhas de nata ou no vídeo bobo do leão dando risada.

Separe:
1 cebola picada
2 dentes de alho
3 colheres de chá de manteiga
4 colheres de chá de amido de milho
3 xícaras de chá de leite frio
3 gemas
2 xícaras de chá de queijo prato ralado
½ xícara de chá parmesão ralado
Sal, pimenta e noz moscada a gosto
Farinha rosca e ovos batidos para empanar
Óleo para fritar

Leve uma panela média ao fogo e derreta a manteiga. Refogue a cebola na manteiga e acrescente o alho. 

Dissolva o amido de milho no leite frio e acrescente ao refogado. Em seguida acrescente as gemas e cozinhe até engrossar. Tempere com sal, pimenta e noz moscada.

Desligue o fogo e deixe a massa amornar. Em seguida, acrescente os queijos.
Modele os croquetes como desejar. Se desejar, recheie os croquetes com um mais um pedacinho de queijo antes de modelar.

Passe o croquete na farinha de rosca, nos ovos batidos e novamente na farinha de rosca.

Frite por imersão em óleo bem quente.

Dica: Se quiser deixá-lo ainda mais crocante, depois de frito, leve o croquete ao forno por cerca de cinco minutos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Bolo de ameixa preta

Tô muito orgulhosa hoje. É aniversário da minha vó. 89 anos. Resolvi fazer um bolo para ela. Do jeito que ela fazia quando a gente era pequeno. Bolo branco com recheio de ameixa e cobertura de chantilly com coco. Bem grande e cheio de camadas e com uma decoração duvidosa. A Natalia lembrou das flores. As rosas que a vó recolhia do jardim dela: uma cor de rosa e uma branca. Não temos mais a rosa do jardim porque a vó não tem mais jardim e sim uma "floresta particular", no seu apartamento onde já vive sozinha há 13 anos. Mas temos aplicativos de entregas capazes de deixar um buquê na portaria do prédio em meia hora. Fiz o bolo com minhas referências de confeiteira e da memória afetiva do bolo da vó, que eu adoro e minha irmã não gosta porque é de ameixa. A irmã que faz aniversário um dia antes da vó e decidiu comer bolo de nozes com baba de moça e cobertura de fios de ovos este ano. Estava delicioso. Esta foi a primeira vez que fiz esse bolo. Caprichei. Fui paciente. Segui a...

crostoli

Demorou mas chegou a hora de contar sobre essa receita do lado italiano da família, que desde que me entendo por gente as tias preparam no Carnaval. Crostoli: uma massinha doce frita com cobertura de açúcar. Simples assim. Mas às vezes não tão simples assim. Porque cada uma tem sua preferência de texturas e sabores e a confusão é geral na cozinha quando junta a tiarada e a primaiada. Nos últimos anos, cada família tem feito suas receitas em casa e levado um saquinho pronto para a outra família experimentar. Menos gente, menos barulho. Sério: a receita é simples e cheia de aromas. Leva pinga, baunilha e raspas de laranja e limão. Precisa passar no cilindro para ficar bem fininha antes de fritar no óleo bem quente. E é nessa etapa de abrir a massa que a confusão se instala: a nonna que trouxe a receita original do Norte da Itália gostava bem fininha. Quase quebradiça. Mas os abrasileirados preferem a massa um tantinho mais grossa. E, no cilindro, a disputa começa. E tem quem gosta m...

creme de cebola caseiro

Ela faz das dificuldades da vida uma arte. De mansinho, ela é capaz de te acalmar com um abraço leve e carinhoso. Quando você menos espera, está sentado na mesa da cozinha e na sua frente tem pão, frios, manteiga, requeijão, café adoçado, leite, bolo. E refrigerante, se preferir. Ou uma travessa de macarrão a bolonhesa ao lado de uma assadeira cheia de coxas e sobrecoxas de frango assado com batatas. Ou um belo pedaço de carne de porco assada.  Sempre tem um copo de cerveja gelada te esperando na casa da tia Thelma. E longas conversas despretensiosas, contadas ao lado do tio Luciano. Ela, com a voz calma, herança da mãe japonesa, ele falando com as mãos, italiano que é. Ela ainda lembra daqueles dias em que as três sobrinhas passaram uma semana das férias de verão na casa dela, brincando com a filha. Eu também nunca esqueci. Foram muitos geladinhos de chocolate e um bolo floresta negra. Aprendemos a fazer bombom e dar nozinhos na massa antes de assar bolachinhas de pinga. ...