Entregar as bolachinhas tem me levado a lugares da cidade que eu não conhecia. Me sinto numa aventura divertida com trilha sonora da rádio local. Outro dia fui parar num fundo de vale atrás do Parque Arthur Thomas, que fica a apenas sete quilômetros da minha casa. A pessoa que encomendou os doces me perguntou se eu entregava tão longe. Quando fui ver o endereço no Google maps e descobri que era pertinho, não hesitei: sete quilômetros é logo ali.
Crescendo na periferia de São Paulo, num bairro com poucas opções de escolas, hospitais, lojas, mercados, eu me acostumei a sair de casa e percorrer pelo menos dez quilômetros para chegar em algum lugar. A única coisa boa do Novo Mundo era a casa da vó que ficava na rua de trás. Saía do prédio, virava à direita. Na esquina, atravessava a rua e seguia à direita. Cruzava a primeira rua, na segunda rua virava à direita de novo e a segunda casa era a do quintal com a roseira mais linda do bairro: a da Therê.
Eu estudei a vida toda em escolas de outros bairros. O Santa ficava a sete quilômetros da minha casa mas o trânsito era tanto que minha mãe demorava mais de meia hora para chegar na escola quando dava sorte. Em dias de chuva éramos as últimas a ir embora. Me dava um aperto no peito essa espera, mas aproveitava para fazer a lição de casa. Meu sonho era ir embora a pé como meus amigos faziam.
No Exatus, tinha que cruzar o rio Tietê para ir à escola. Foi quando aprendi a tomar ônibus. Era tão pertinho, mas se a marginal estivesse parada, eu chegava atrasada. Então tinha que sair muito cedo e assim chegava muito cedo.
Fui fazer faculdade em São Bernardo e no primeiro ano pegava carona com uma colega que morava no bairro ao lado. Tínhamos que sair bem cedo para fazer cerca de 30 quilômetros até a faculdade. Se eu ia de ônibus, meu pai me deixava na rodoviária e eu precisava de um ônibus só para chegar na Metodista. Mas na volta, era um ônibus até o metrô, 17 estações de metrô até o próximo ônibus que parava na avenida principal do meu bairro. Duas horas de viagem. Então, sete quilômetros do bosque até o parque Arthur Thomas me parece mais um passeio.
Comecei a reparar nos bairros de Londrina. Como a vida parece ser diferente do centro, onde moro desde que cheguei aqui há 17 anos. Pequenos comércios de bairro de nomes engraçados, mercadinhos simpáticos, crianças nas ruas, praças bem cuidadas. Silêncio. Eu me encanto cada vez que sou desafiada a levar um pacote de bolachinhas para um desconhecido num bairro onde nunca estive. Outro dia me perdi pelas ruas paralelas à avenida Europa que eu sequer sabia que existia.
Às vezes dá vontade de ir embora do centro. De sentar com os vizinhos na portão e ficar comentando a vida alheia como minha vó fazia no Novo Mundo. Ela conhecia todo mundo da rua Cristóvão Moraes Garcia já que foi uma das primeiras moradoras do bairro. Ela fazia o jogo do bicho no boteco em frente à casa dela e quase sempre ganhava. Ela levava uma guloseima para os netos da dona Maria, tomava café na casa da portuguesa dona Odete, ficava de olho nos carros que paravam na frente da casa do Nicola quando tinha festa. Ela estava sempre sentada no sofá e de olho na janela. E sempre dava uma flor de seu jardim para quem pedisse.
Hoje a casa da vó virou uma empresa não sei do quê. Aquele bairro onde cresci não só não foi para frente como se tornou um local de transportadoras barulhentas e dezenas de prédios que atrapalham a vista. Não tem nada de bonito lá, infelizmente. Quer dizer, tem meus pais.
Aqui no bosque, tem barulho, tem cheiro de pomba, tem o movimento das ruas centrais mas tem as árvores que embelezam todos os meus dias e acalmam a rotina quando ela fica pesada demais. Aqui tem mercado na rua de trás, tem farmácia na esquina de cima e hospital a duas quadras. Tem cinema do shopping a dez minutos de caminhada pelo calçadão. Tem sebo, restaurante árabe, churrascaria, tem um dos botecos mais antigos da cidade. Tem o jornal onde me tornei jornalista do outro lado do bosque. Tem a casa da maioria dos amigos a apenas alguns minutos de subida até o lado de lá da Higienópolis. Tem a feira de domingo na esquina, a qual tenho preguiça de frequentar talvez porque esteja disponível demais.
Ainda que seja interessante passear pelos bairros e me imaginar morando numa daquelas casas - justo eu que nunca morei em casa em toda a minha vida -, ainda me sinto mais eu morando no meu apezinho de frente para o bosque. Com todas as suas pequenas imperfeições. Sou muito mais feliz e autônoma aqui do que fui na metrópole, isso é certo. E quando penso em ir embora, me pego sentindo saudade até do barulho dos caminhões lavando o bosque logo cedo. Acho que encontrei meu lugar no mundo. Aquele como o próprio nome diz, o centro, perto de tudo e todos. Equilíbrio perfeitamente imperfeito.
Separe
2 ovos
¾ xícara de chá de açúcar
2 colheres de sopa de manteiga
Uma pitada generosa de sal
1 colher de sopa de fermento
1 xícara de leite
2 xícaras de farinha de trigo
Bananas
Óleo para fritar
Açúcar e canela para polvilhar
Misture bem os ovos, o açúcar, a manteiga e o sal.
Em seguida, acrescente parte da farinha e vá alternando com parte do leite.
Por último, misture o fermento.
Corte as bananas em rodelas e acrescente na massa.
Leve o óleo a uma panela média o suficiente para fritar por imersão. Importante não economizar na quantidade de óleo para não encharcar o bolinho.
Com uma colher de sopa pingue a massa no óleo. Não esqueça de pegar a banana junto.
Frite até dourar e coloque numa travessa com papel toalha para absorver o excesso de óleo.
Passe os bolinhos de banana na mistura de açúcar e canela e seja feliz.
Curiosidade
Crescendo na periferia de São Paulo, num bairro com poucas opções de escolas, hospitais, lojas, mercados, eu me acostumei a sair de casa e percorrer pelo menos dez quilômetros para chegar em algum lugar. A única coisa boa do Novo Mundo era a casa da vó que ficava na rua de trás. Saía do prédio, virava à direita. Na esquina, atravessava a rua e seguia à direita. Cruzava a primeira rua, na segunda rua virava à direita de novo e a segunda casa era a do quintal com a roseira mais linda do bairro: a da Therê.
Eu estudei a vida toda em escolas de outros bairros. O Santa ficava a sete quilômetros da minha casa mas o trânsito era tanto que minha mãe demorava mais de meia hora para chegar na escola quando dava sorte. Em dias de chuva éramos as últimas a ir embora. Me dava um aperto no peito essa espera, mas aproveitava para fazer a lição de casa. Meu sonho era ir embora a pé como meus amigos faziam.
No Exatus, tinha que cruzar o rio Tietê para ir à escola. Foi quando aprendi a tomar ônibus. Era tão pertinho, mas se a marginal estivesse parada, eu chegava atrasada. Então tinha que sair muito cedo e assim chegava muito cedo.
Fui fazer faculdade em São Bernardo e no primeiro ano pegava carona com uma colega que morava no bairro ao lado. Tínhamos que sair bem cedo para fazer cerca de 30 quilômetros até a faculdade. Se eu ia de ônibus, meu pai me deixava na rodoviária e eu precisava de um ônibus só para chegar na Metodista. Mas na volta, era um ônibus até o metrô, 17 estações de metrô até o próximo ônibus que parava na avenida principal do meu bairro. Duas horas de viagem. Então, sete quilômetros do bosque até o parque Arthur Thomas me parece mais um passeio.
Comecei a reparar nos bairros de Londrina. Como a vida parece ser diferente do centro, onde moro desde que cheguei aqui há 17 anos. Pequenos comércios de bairro de nomes engraçados, mercadinhos simpáticos, crianças nas ruas, praças bem cuidadas. Silêncio. Eu me encanto cada vez que sou desafiada a levar um pacote de bolachinhas para um desconhecido num bairro onde nunca estive. Outro dia me perdi pelas ruas paralelas à avenida Europa que eu sequer sabia que existia.
Às vezes dá vontade de ir embora do centro. De sentar com os vizinhos na portão e ficar comentando a vida alheia como minha vó fazia no Novo Mundo. Ela conhecia todo mundo da rua Cristóvão Moraes Garcia já que foi uma das primeiras moradoras do bairro. Ela fazia o jogo do bicho no boteco em frente à casa dela e quase sempre ganhava. Ela levava uma guloseima para os netos da dona Maria, tomava café na casa da portuguesa dona Odete, ficava de olho nos carros que paravam na frente da casa do Nicola quando tinha festa. Ela estava sempre sentada no sofá e de olho na janela. E sempre dava uma flor de seu jardim para quem pedisse.
Hoje a casa da vó virou uma empresa não sei do quê. Aquele bairro onde cresci não só não foi para frente como se tornou um local de transportadoras barulhentas e dezenas de prédios que atrapalham a vista. Não tem nada de bonito lá, infelizmente. Quer dizer, tem meus pais.
Aqui no bosque, tem barulho, tem cheiro de pomba, tem o movimento das ruas centrais mas tem as árvores que embelezam todos os meus dias e acalmam a rotina quando ela fica pesada demais. Aqui tem mercado na rua de trás, tem farmácia na esquina de cima e hospital a duas quadras. Tem cinema do shopping a dez minutos de caminhada pelo calçadão. Tem sebo, restaurante árabe, churrascaria, tem um dos botecos mais antigos da cidade. Tem o jornal onde me tornei jornalista do outro lado do bosque. Tem a casa da maioria dos amigos a apenas alguns minutos de subida até o lado de lá da Higienópolis. Tem a feira de domingo na esquina, a qual tenho preguiça de frequentar talvez porque esteja disponível demais.
Ainda que seja interessante passear pelos bairros e me imaginar morando numa daquelas casas - justo eu que nunca morei em casa em toda a minha vida -, ainda me sinto mais eu morando no meu apezinho de frente para o bosque. Com todas as suas pequenas imperfeições. Sou muito mais feliz e autônoma aqui do que fui na metrópole, isso é certo. E quando penso em ir embora, me pego sentindo saudade até do barulho dos caminhões lavando o bosque logo cedo. Acho que encontrei meu lugar no mundo. Aquele como o próprio nome diz, o centro, perto de tudo e todos. Equilíbrio perfeitamente imperfeito.
Separe
2 ovos
¾ xícara de chá de açúcar
2 colheres de sopa de manteiga
Uma pitada generosa de sal
1 colher de sopa de fermento
1 xícara de leite
2 xícaras de farinha de trigo
Bananas
Óleo para fritar
Açúcar e canela para polvilhar
Misture bem os ovos, o açúcar, a manteiga e o sal.
Em seguida, acrescente parte da farinha e vá alternando com parte do leite.
Por último, misture o fermento.
Corte as bananas em rodelas e acrescente na massa.
Leve o óleo a uma panela média o suficiente para fritar por imersão. Importante não economizar na quantidade de óleo para não encharcar o bolinho.
Com uma colher de sopa pingue a massa no óleo. Não esqueça de pegar a banana junto.
Frite até dourar e coloque numa travessa com papel toalha para absorver o excesso de óleo.
Passe os bolinhos de banana na mistura de açúcar e canela e seja feliz.
Curiosidade
Minha vó fazia esse bolinho a olho. Juntava os ingredientes conforme tinha na despensa e em cinco minutos ficava pronto. Hoje eu vejo que comíamos bolinho de banana cru e encharcado de tão rápido que a vó fazia. Por alguma razão a gente amava aquele docinho mal feito.
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